As Pedras do Caminho.

Capítulo 1

A Desintrusão dos Garimpeiros do Juruena

Em meados de 1987, a Jaruana Mineração Indústria, Comércio S/A, que operava uma planta de pesquisa mineral as margens direita do Rio Juruena, no extremo norte de Mato Grosso, sofreu invasão de garimpeiros provenientes da região de Alta Floresta/Apiacàs.

A empresa havia requerido um grande bloco de áreas recobrindo as antigas Lavras Garimpeiras do “Expedito”, uma das mais antigas áreas de exploração de ouro existentes na Amazônia e fundada no início da década de 1960.

Com a conclusão da pesquisa dos minérios aluvionares dos depósitos ricos em ouro, a empresa iniciou entendimentos com os garimpeiros para o início da lavra, através da intermediação do garimpeiro José Altino, presidente da famosa USAGAL (União dos Garimpeiros da Amazônia Legal), os quais não lograram êxito.

Posteriormente, iniciaram varias demandas judiciais para desocupação da área, de tal maneira que em 1987 garantiu a reintegração de posse das suas áreas e a retirada de 10.000 garimpeiros.

Em 04 de julho de 1987, essa situação de conflito provocou uma invasão de garimpeiros à sede da empresa, causando a destruição dos seus equipamentos e a morte de três dos seus funcionários (01 geólogo, o gerente administrativo e um segurança), num dos mais graves incidentes ocorridos na mineração do Brasil.

Logo após o ocorrido, o governo estadual e o governo federal determinaram o envio de uma equipe técnica para o estudo da situação na região. Representando o Estado, fui eu, pela METAMAT e o então capitão Walter Pereira da Policia Militar. Representando a União dois técnicos do DNPM, entre eles o geólogo José Antônio Alves dos Santos, da Divisão de Fomento Mineral e mais um agente da PF, do qual não me recordo mais o nome.

Partimos de Cuiabá, bem cedo em um avião fretado, com um piloto veterano de missões no norte do estado. Fizemos uma escala em Alta Floresta para o reabastecimento do avião e seguimos para o rio Juruena, após nos informarmos das condições de pouso.

Ao chegarmos à sede da empresa fomos recepcionados pelo novo gerente, o qual nos explicou a gravidade da situação e o clima de extrema tensão entre os funcionários. Apesar disso, a maioria dos membros da equipe reunidos decidiram verificar “in locu”, a situação no conhecido “baixão”. Seguimos então por um picadão aberto na selva até o local, acompanhados por um segurança da mineradora, apelidado de “Hulk”.

Ao chegarmos logo verificamos um grande número de barracas, garimpeiros e equipamentos como motores e dragas. Havia ainda um grande número de novos garimpeiros chegando ao local através da chamada “varação”, pelas quais transportavam em picadas rusticas, nos ombros e por dezenas de quilômetros: mantimentos, equipamentos, óleo diesel etc.

Durante nossa estada ali um garimpeiro alertou a um dos membros da nossa equipe para sermos cuidadosos, pois havia uma ameaça de morte pronunciada contra o segurança “Hulk”, por violências cometidas contra os garimpeiros da área.

Não deu outra, pois no retorno ao acampamento, fomos emboscados por garimpeiros armados com cartucheiras cal 12. Foram atingidos, o capitão Walter e o segurança da Mineradora, com chumbo de cartucho na cabeça. O atirador, devido a distancia do tiro não conseguiu maior estrago.

A equipe se protegeu na mata, enquanto o agente federal que estava nos acompanhando, armado com uma antiga submetralhadora INA (calibre 9 mm), deu uma rajada em direção aos agressores e, depois,   para nossa surpresa, avisou que tinha apenas mais um pente de munição de reserva.

Abrigados na mata saímos então, um após o outro, à uma certa distância, para dificultar o trabalho dos homens da tocaia. Graças a Deus nada mais aconteceu. Logo em seguida encontramos de saída para o baixão um pelotão completo da PM do estado de Mato Grosso, comandado pelo então Tenente Leovaldo Salles.

Sem que soubéssemos estava iniciada a operação de desintrusão dos garimpeiros da área da Jaruana. Devido à gravidade dos ferimentos de nossos companheiros, foi dada prioridade ao seu encaminhamento para Alta Floresta e Cuiabá via aérea. Ficaríamos o restante em pernoite no acampamento da mineradora.

Logo ao entardecer chegaram os primeiros garimpeiros presos, cerca de uma centena que foram reunidos no pátio em frente ao Escritório. Passámos a noite preocupados com as vidas dos companheiros e a situação no acampamento. Na verdade, dormimos, por assim dizer “de botina”, pois a única maneira de escaparmos do local era pelo Porto da empresa, que ficava no rio Juruena abaixo, ou pela pista de pouso em frente ao acampamento. Na manhã seguinte retornamos, por via aérea para Cuiabá.

Posteriormente, ao chegarmos em Cuiabá, soubemos por funcionários designados para nos acompanhar que o Cel Walter já se encontrava bem e sem risco de vida. Quanto ao segurança “Hulk”, devido a maior gravidade dos ferimentos, fora transferido para um hospital em São Paulo, do qual não mais tive notícias.

Em casa fiz de tudo para que a família não soubesse do ocorrido, infelizmente as noticias não paravam de chegar da região, ganhando o espaço na grande mídia. Como consequência do ocorrido foi aberto um Inquérito Policial/Militar (IPM) para verificação e tive que dar depoimentos sobre o caso na sede do Corpo de Bombeiros Militar em Cuiabá.

Após esse grave incidente a situação no garimpo do Juruena continuou conflituosa, como outros que veriam de se verificar nos anos seguintes, sempre uma verdadeira pedra no caminho de alguns profissionais de geólogia que conviveram com isso naquelas décadas

Marcos Vinícius Paes de Barros

Geólogo Sênior

METAMAT.